sábado, 27 de junho de 2020

Mosteiro de São Bento de Avé-Maria, o templo sacrificado para a construção da Estação de São Bento, Porto

Convento de São Bento de Avé-Maria
Fachada voltada para a Praça Almeida Garrett
Foto de autor desconhecido, 1890-1894;
Arquivo Gisa, CMP.
O Mosteiro de São Bento de Avé-Maria foi um edifício que que albergou freiras beneditinas, demolido no final do século XIX, localizava-se no Largo de S. Bento (actual Praça de Almeida Garrett), cidade do Porto.
Estação de São Bento, Porto
Foto editada de Eurodicas Turismo, 2019
No seu local, no inicio do século XX, foi construída a actual Estação Ferroviária de São Bento, cujo nome foi atribuído em homenagem ao antigo mosteiro.

História

Mandado construir dentro dos muros da cidade, no local chamado das Hortas do Bispo por El-Rei D. Manuel I, no início do século XVI, o Mosteiro da Ave-Maria ou da Encarnação das monjas de São Bento(religiosas beneditinas), seria inaugurado no dia de Reis do ano de 1535, já no reinado de D. João III, depois de concluido a mando deste pelo  mestre de pedreiro João Lopes o Velho.
Convento de São Bento de Avé Maria,
Fachada da igreja,
Foto de autor desconhecido, 1890-1894;
Arquivo Gisa, CMP.
Inicialmente o Mosteiro teve como objectivo transferir as religiosas dos locais mais remotos para dentro da cidade. No século XVI recebeu algumas freiras de um extinto mosteiro em Macieira de Sarnes. Foi a sua primeira abadessa D. Maria de Melo, monja de Arouca e, ao mesmo tempo, regedora do Mosteiro de Tarouquela.

Mais tarde começou a receber mulheres com alguma condição social que ali se quiseram recolher, nomeadamente filhas de nobres que não conseguiram fazer casamentos satisfatórios, numa época em que as mulheres dependiam de um bom casamento para manterem a sua condição social. 
Convento de São Bento de Avé-Maria,
Sacristia,
Foto de autor desconhecido, 1890-1894;
Arquivo Gisa, CMP.
De três em três anos, quando da eleição das novas abadessas, realizavam-se os chamados Outeiros ou Abadessados para os quais eram convidados familiares e amigos das freiras e internas, figuras da sociedade e poetas famosos desse tempo. Eram uma espécie de serões culturais, que duravam três noites e terminavam altas horas da madrugada.

A eles assistiam muitas pessoas e sobressaíam poetas repentistas. Camilo, Guerra Junqueiro, Xavier de Novais, Alberto Pimentel, Guilherme Braga e tantos outros eram costumeiros destas diversões.

Convento de São Bento de Avé-Maria,
Fachada da igreja,
Foto de autor desconhecido, 1890-1894;
Arquivo Gisa, CMP.
Vários testemunhos referem-se ao Real Convento como uma maravilha em decoração e magnificência, deduzindo-se ter predominado inicialmente o estilo manuelino e mais tarde o barroco(século XVII) e barroco tardio (século XVIII). Deduz-se, pois foram muitas as alterações e aditamentos qua a igreja e o convento sofreram durante os anos, a última motivada por um incêndio em 1783, que ao tempo da demolição apenas restava um arco manuelino da traça primitiva. O responsável pela grande ultima intervenção na arquitectura do Mosteiro foi Manuel Álvares, na sequência do referido incendeio, é dele o riscado da ultima planta que o Mosteiro  apresentou.

Convento de São Bento de Avé-Maria,
Claustro,
Foto de autor desconhecido, 1890-1894;
Arquivo Gisa, CMP.

Com a afirmação do Liberalismo no início do século XIX, as Ordens Religiosas são extintas com a publicação do famoso decreto de 1834, façanha de Joaquim de António de Aguiar, mais conhecido por “mata frades”.

Esse famoso decreto promovia a extinção imediata das ordens religiosas masculinas, a proibição de que novas freiras professassem os seus votos e a extinção dos conventos por morte da última freira que lá residisse nesse ano. O mesmo decreto determinava que os bens passassem a pertencer ao Estado. 

A portaria governamental que mandava demolir o convento das freiras beneditinas de S. Bento da Ave Maria, para no seu lugar se construir a estação central dos caminhos-de-ferro da cidade, foi publicada em 5 de Novembro de 1888.

No caso do Mosteiro da Avé Maria, a ultima freira terá falecido em 1892, ficando as instalações devolutas. 

A partir daí as instalações começaram a ficar devolutas, abrindo então caminho para a construção da estação de São Bento.
Demolição da Igreja do Mosteiro de São Bento da Avé-Maria
Foto de autor desconhecido, c.1900
Arquivo Monumentos Desaparecidos
A demolição dos claustros inicia-se cerca de 1894 e a da igreja processa-se entre Outubro de 1900 e Outubro de 1901. As ossadas das monjas foram recolhidas numa catacumba mandada construir no cemitério do Prado do Repouso pela Câmara Municipal do Porto, em 1894.
Escombros da demolição da Igreja do Mosteiro de São Bento da Avé-Maria
Foto, Jornal Público, 1901.
Muito do seu espólio perdeu-se por altura da demolição, incluindo uma grande variedade de azulejos-tapete, alguns dos quais foram recolhidos por Rocha Peixoto. O que resta do espólio pode apreciar-se no Museu do Seminário do Porto (talha), na Igreja de São João das Caldas em Vizela (retábulo-mor da igreja), Paço de S. Cipriano em Guimarães (azulejos do claustro), no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa (báculo da Abadessa) e no Mosteiro de Singeverga em Roriz (cibório com pedras finas).


As imagens da imponente igreja foram adornar altares de outros templos; a confraria do Senhor do Bonfim comprou o órgão; e os ossos das religiosas, que jaziam debaixo do soalho da igreja e sob o lajedo do claustro, foram levados para um sarcófago no cemitério do prado do Repouso que ficou assinalado com um belíssimo pórtico manuelino, velha relíquia salva da construção do tempo de D. Manuel I. 

Curiosidade 1

Em 1888, engenheiros e pessoal das Obras Públicas “invadiram” a clausura e começaram a tirar medidas com o propósito de dar início aos trabalhos de demolição. O mosteiro ainda estava habitado. À frente dos funcionários apareceu uma abadessa que lhes disse de forma calma e serena: 
- “podem tomar quantas medidas quiserem que o convento não vai a terra enquanto aqui houver religiosas; temos muita fé no nosso patriarca S. Bento que nos ouve e o milagre vai acontecer: ou o ministro morre ou cai o ministério…”

O ministro que era o Emídio Navarro não morreu, mas demitiu-se dias depois da pasta das Obras Públicas. O convento só começou a ser arrasado após a morte, em 17 de Maio de 1892, da última abadessa, D. Maria da Glória Dias Guimarães.

Desde então, subsistem várias histórias, entre as quais de que em certas noites, ainda é possível ouvir as rezas da última abadessa a ecoar pelos corredores das alas da estação!

Curiosidade 2

No subsolo da praça frente à Estação (Praça de Almeida Garrett) circula o Rio da Vila que resulta, naquele local, da junção de dois ribeiros: um nascido na Praça do Marquês e outro no Bolhão.

A estação de comboios de São Bento, no Porto, foi considerada uma das 14 mais belas do mundo pela revista norte-americana Travel+Leisure. Os painéis de azulejos azuis e brancos de Jorge Colaço, que enchem as paredes desta estação da Linha do Minho, colocaram o edifício na mesma lista de outras paragens ferroviárias como a neoclássica Gare du Nord, em Paris, ou Atocha, em Madrid.

Fontes:
O Mosteiro de São bento de Ave-Maria do Porto, 1518-1899, Uma Arquitectura no Século XVIII, Volume I, Isabel Maria Ribeiro Tavares de Pinho, Porto, 2000.
Rádio Portuguesa, A Voz da Invicta;
Wikipédia;

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora das Virtudes da Ordem de São Francisco, Aveiras de Baixo

Foto (editada)de Joel Pratas, 2015
A Igreja do extinto Mosteiro de Nossa Senhora das Virtudes da Ordem de São Francisco é uma igreja localizada no lugar das Virtudes, na freguesia de Aveiras de Baixo e concelho de Azambuja. Construída no início do século XV a mando de D. Duarte, o Rei Filósofo, a sua construção teve por base uma lenda que atraiu o culto a este lugar.
As romarias tornaram-se conhecidas e junto à ermida nasce também um pequeno convento, seguindo-se de um hospital e outras estruturas ligadas, para assim darem apoio não só à população como também aos peregrinos.

Durante séculos o lugar continuou a atrair peregrinos e só entrará em decadência por volta de 1834, com a extinção das Ordens religiosas, as religiosas abandonam o local, extingui-se o intensivo culto mariano, o local é alvo de saques e roubos, começando assim um frenético declínio. O convento desaparecerá ainda no século XIX e a igreja chega ao século XX em pleno estado de ruína.













Foto de Vitor Oliveira, 2019

Na década de 90 do século XX são efectuadas escavações arqueológicas às dependências tumulares, cujo espólio foi transferido para o Museu Municipal da Azambuja.
A Câmara Municipal da Azambuja toma a iniciativa de recuperar a igreja em 2009 mantendo a traça quatrocentista, em junho de 2010, a mesma era então inaugurada.

Possui a classificação de Imóvel de Interesse Municipal, desde o ano de 1996.
A Lenda

 Pelo ano de 1403, enquanto um homem pastoreava a sua manada, é surpreendido pela fuga do mais desencabestado dos seus bois, persegue-o, mas já o perdendo de vista, acaba por encontra-lo entre o embaranhado da vegetação declinado sobre uma singela imagem  da Virgem que alí se encontrava esquecida.
 O pastor intriga-se perante tal merecedora atenção que o animal dedicara à imagem, como se de um mangar especial se tratasse, dentro do que sereia a esperada compreensão daquele ser. 

Corre a comunicar o sucedido à população e em pouco tempo a história espalha-se pelos arredores, ali acode gente de todo o lado, uns movidos pela fé, outros pela curiosidade. Logo se ergue uma pequena ermida de madeira, registam-se os primeiros relatos dos peregrinos sobre  graças recebidas, procura-se um local melhor onde se possa construir uma ermida em pedra e cal que vá de encontro às necessidades dos visitantes. 

  A imagem mariana passou a designar-se por Santa Maria dos Ademar, que mais tarde, em virtude das graças concedidas, ,foi chamada de Santa Maria das Virtudes e assim ficou. 

Fontes:
Wikipédia;
DGPC;
O Mirante, 2004.


João Torto e o voo de pouca dura


A 20 de junho do ano da graça de 1540, João de Almeida Torto, um português residente em Viseu, enfermeiro do hospital de Santo António, mestre das primeiras letras, exercendo também o mister de escrever cartas familiares e de amores, no alto da sua coragem,  mandou deitar pela cidade o seguinte pregão:

 - "Saibam todos os senhores habitantes desta cidade, que não terminará este mês sem se ver a maior das maravilhas, a qual vem a ser um homem desta cidade voar, com asas feitiças, da torre da Sé ao Campo de São Mateus, pelo que responde por sua pessoa e bens."

Esta notícia causou um grande alvoroço na cidade, todos os habitantes esperavam com ansiedade a ocasião de testemunhar o estupendo feito de tamanha audácia. Por prudência a a esposa impôs-lhe a obrigação de fazer testamento em benefício dela, perante a ausência de filhos, pretendia assegurar o seu futuro. A pobre mulher depositaria pois pouca fé  na empreitada do marido,  mas pouco pôde fazer perante a sua irredutibilidade alimentada em parte pela comoção das gentes daquela antiga terra.


Assim, ele próprio inventou um rudimentar sistema de asas composta por uma estrutura de madeira ligada com panos de linho e revestida por penas orgânicas. Um verdadeiro sistema de asas de fazer corar "de preocupação", Leonardo Da Vinci.

Com a permissão da igreja, construiu uma rampa de lançamento no cimo da Sé de Viseu, que permitiria proporcionar o impulso que a física instintiva lhe permitiu calcular.

A experiência teve lugar por volta da cinco horas da tarde, perante uma multidão expectante. De acordo com os relatos da época, terá conseguido em parte voar, tendo aterrado em cima do telhado da Capela de São Mateus, mas logo tombando sobre as asas, o que lhe provocou lesões que o conduziram à morte.

A história foi publicada em 1922, no periódico Comércio de Viseu, intitulada “O Homem Voador”.
No curso da História, a experiência de 1540 é pioneira em Portugal e sucedeu aos estudos que Leonardo da Vinci (1452-1519) desenvolveu sobre a possibilidade humana de voo.

Este homem cujo nome foi atribuído a uma rua da cidade de Viseu foi precursor do voo livre em Portugal.


Fonte:
Viseupédia, Nº06, "João Torto" - Jun. 2011, 250ex. Texto: Liliana Castilho

sábado, 13 de junho de 2020

Ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro, Viana do Alentejo

Foto: Kina Barbosa, 2020

Viana do Alentejo, A terra que não quis senhor;


Viana do Alentejo é uma vila portuguesa, localizada a sudoeste, no Distrito de Évora, região Alentejo e sub-região do Alentejo Central. 
É sede de um município subdividida em 3 freguesias: Aguiar,  Alcáçovas e Viana do Alentejo.
O município é limitado a norte pelo município de Montemor-o-Novo, a nordeste por Évora, a leste por Portel, a sueste por Cuba, a sul pelo Alvito e a sudoeste e oeste por Alcácer do Sal.
Postal Ilustrado: Santuário de Nossa Senhora de Aires
Título: Igreja da Senhora de Aires. Viana do Alentejo (Portugal)
Descrição: Reprodução de postal ilustrado com fotografia do Santuário de Nossa Senhora de Aires.
Autor: Desconhecido. Data: início do século XX.
Apesar da Vila apresentar um carácter modesto, não deixa de ser notada uma certa opulência monumental que causa um certo espanto a quem visita a região. Todavia este fenómeno, se assim o poderei chamar, deve-se sobretudo à proximidade da corte que passava grandes temporadas em Évora, contribuindo assim para o desenvolvimento de toda a região circundante, sobretudo no que ao aspecto religioso diz respeito, Viana localiza-se apenas a cinco léguas de caminho da Évora, distancia considerada já para a época como uma jornada normal.
A Vila terá servido como distracção cortesã, são disso prova o Castelo, os antigos Conventos, a magnifica Igreja Matriz, obra do mestre Diogo de Arruda, um extraordinário artífice que trabalhou nas obras de D. Manuel, e ainda o Santuário de Nossa Senhora de Aires, um esplendoroso templo Rococó onde se venera uma Pietá gótica de pedra de Ançã e cuja arquitectura actual remonta a 1760.  
O actual santuário foi construindo sobre uma ermida quinhentista, cercada por cinco hospedarias para romeiros. Aqui ocorriam numerosos grupos de peregrinos para cumprimento de votos e novenas em honra da Nossa Senhora de Aires, romarias que chegaram às 12.000 pessoas. Os peregrinos atraíram mercadores e forasteiros fazendo da grande feira uma feira franca no ano de 1751 por alvará do Marquês de Pombal.   
O Brasão é composto por um escudo com um leão acompanhado lateralmente por dois escudetes carregados cada um, pela Cruz de S. Jorge ou pela Cruz da Ordem de Cristo. O escudo central é ainda acompanhado em cima e em baixo por uma estrela formada por dois triângulos com seis raios.
Esta velha vila diocesana representa o renascer de uma povoação muito antiga, que subsistira até ao inicio da reconquista cristã e destruída no âmbito dessa reconquista. 
Ali muito perto fica a herdade de Paredes, nome que vem das grandes paredes ou muralhas que lá existiam, com efeito são frequentes os achados arqueológicos que apontam para a existência de uma acrópole romana onde hoje domina o Santuário de Nossa Senhora de Aires. Os estudos mais consistentes que apontam para essa possibilidade foram levados a cabo por José Leite de Vasconcelos. 
Rodeada por hortas e quintas abundantemente irrigadas, elevada a 250 metros de altitude, e sitio plano, na elevação a que dá o nome. Viana do Alentejo foi durante muitos anos conhecida apenas por Viana e antes disso por Viana de Fochem ou Fosen ou simplesmente por Fochim ou Fosin, Viana de a par de Alvito e ainda Viana de Alvito
A origem actual da vila pode estabelecer-se com precisão,  num diploma  de 9 de novembro de 1313, onde D. Dinis cria a vila incluindo os lugares de Alvito, Benalbergue, Malcabrão, Oriola, Vila Nova e Vila Ruiva. Nesse mesmo documento os moradores comprometiam-se a edificar uma muralha de protecção militar em torno da vila. Para ajudar com a construção, o Rei entrou com 1.000 libras.  Recebeu foral em 1321.
As muralhas são hoje tão baixas que mal se lhe pode atribuir uma finalidade militar, mas apenas a intenção de fechar a vila.
As cortes e os reis refugiavam-se ali quando Évora era assolada por grandes epidemias, terá sido por uma dessas alturas que em 1482  terá sido realizada a reunião das cortes de Viana que havia sido convocada para sere realizada em Évora. Durante algum tempo D. João II ali ocupou o seu trono, ignorando a suposta maldição de que os senhores de Viana "tinham vida curta", com efeito o 1.º Conde, João Afonso Melo morreu poucos anos depois de receber o título, em 1383, passados alguns anos D. João I atribui o mesmo titulo a D. Pedro Meneses, o famoso governador de Ceuta, que viria a falecer três anos após a dita atribuição, em 1437. As terras ficariam assim atribuídas às "Capelas de D. Afonso IV", isto é, um acervo de bens que este rei havia instituído para sustentação de uma das capelas da Catedral de Lisboa, e só voltariam a ser doadas em 1640 a um filho de D. Fernando, 2.º Duque de Bragança, por coincidência o donatário adoece e conhecedor da maldição daquelas terras pede para que a doação seja revogada e D. Afonso V proibiu solenemente aos seus descendentes, doarem, alienarem ou trocarem fosse a que titulo fosse a Vila de Viana do Alentejo.
Não voltou a haver conde destas terras, D. João II ainda desafiou a maldição quando ali reuniu as primeiras cortes do seu reinado,  mas também para ele não houve muito tempo de vida. Definitivamente a vila não consentiria um senhor.
Viana do Alentejo foi também terra com grande tradição na Olaria, foram abundantes os oleiros nas feiras mercados no século XVII, a classe fora tão representativa que no século XX for instituída uma escola de cerâmica que possibilitou a investigação e reunião dos conhecimentos técnicos dos oleiros e a criação artística de que foram mestres: José Albino Dias; Júlio Resende; e Francisco Lagarto.  São seguidores desta corrente tradicional Feliciano Agostinho, António Agostinho e António Lagarto, no entanto surge uma nova corrente de artistas, jovens oleiros das oficinas do Sol, que fundem os processos tradicionais com o design moderno.

Ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro;

Postal Ilustrado: Ermida do Cruzeiro
Título: N.º 370 – Viana do Alentejo – Cruzeiro
Descrição: Reprodução de postal ilustrado com fotografia onde são visíveis a ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro e uma casa próxima. Autor: Desconhecido Data: início do século XX.
No antigo caminho das romarias à devoção de Nossa Senhora d’Aires, isolada numa planície que se estende entre Évora e a Serra de Viana, ergue-se a cerca de 200 metros a sudeste desse Santuário, a velha Ermida do Senhor do Cruzeiro, onde o tempo e a incúria dos homens deixou estragos quase irreparáveis a que urge pôr fim.
Foto: Kina Barbosa, 2020
A evolução dos impérios ultramarinos portugueses permitiu que a religião se materializa-se em grandes e múltiplas estruturas religiosas espalhadas por todo o território, ainda que a devoção a Cristo remonta-se aos primórdios da religião, com excepção dos mosteiros e conventos, que já abundavam no território ainda antes da constituição deste como pais, é a partir do séculos XVII e XVIII que o numero de pequenos santuários cresce exponencialmente por todo o país. 
Foto: Kina Barbosa, 2020
De acordo com documentação da época, a construção da ermida datará do ano de 1724, para ser edificada em local determinado, onde outrora existira já uma "Cruz do Senhor Jesus da Pedra", que segundo alguns historiadores essa cruz corresponderá ao cruzeiro do castelo, que terá sido transferido para o interior do recinto por volta do ano de 1804.
Segundo os registos de dia quinze de Novembro de 1742, Geraldo da Silva Rocha, morador em Ferreira, senhor das terras no sítio do cruzeiro, doou,  junto à Cruz do Senhora da Pedra, um pedaço de terra para que lá se pudesse erguer uma ermida. Determinou-se no mesmo acto, que a ermida ficaria orientada para o Santuário de Nossa Senhora de Aires e ainda que esta consagraria a sua devoção ao Senhor Jesus da Pedra, que já era venerado no local pelos fiéis.
Também a estrutura base da construção da Ermida, com a planta em forma de cruz grega, revela-se, no século XVIII, uma manifestação da devoção popular ao Crucifixo.
Foto: Kina Barbosa, 2020
Com planta em cruz grega mas com as laterais pouco expressivas, apresenta praticamente uma planta quadrangular, coberta por abóbada em calota(cúpula hemisférica), influencia de arquitectura árabe, muito embora o edifício apresente uma dimensão superior ao habitual para este tipo de função, isso talvez justifique as grandes fendas exibidas na cobertura, originadas sobretudo devido ao peso da grande cuba.
Foto: Kina Barbosa, 2020
A sua arquitectura é uma testemunha da fusão de estilos arquitectónicos, promovido sobretudo pela região onde o edifício se insere, o que o torna tão singular e belo. A planta é em forma de cruz grega, estilo muito apreciado pela arquitectura românica, a cúpula é de inspiração árabe, arquitectura com muita influencia em Portugal, sobretudo no sul, onde os árabes permaneceram durante mais tempo, e ainda uma belíssima fachada ao gosto barroco com origem e motivos franco-italianos.

Foto: Kina Barbosa, 2020
Em 1755 a Ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro estaria já construída, nela existia uma inscrição com essa data com menções honrosas ao fieis que terão financiado a sua construção e que ali se celebrou a primeira missa a data de 26 de setembro de 1756. 
Raquel Seixas considera que, tal como aconteceu noutros locais, a Capela do Senhor Jesus do Cruzeiro poderá obedecer a uma lógica da fusão entre o culto mariano e o culto cristocêntrico. Desde logo, afirmado na iconografia de Nossa Senhora de Aires que, na verdade, é uma representação de Nossa Senhora da Piedade, ou seja, a figuração da Senhora como testemunha da crucificação de Cristo, que é representado disposto sobre o seu regaço. Deste modo, ao santuário da Senhora de Aires acrescentou-se, nas suas imediações, a capela do Senhor Jesus do Cruzeiro, representativa do último dos passos da Paixão de Cristo. No dizer da autora, “Estes dois templos em conjunto contam a mesma história, tornando-se, por isso, complementares. Ao Cristo Crucificado sucede-se a Senhora de Aires (da Piedade) que conjuntamente com o Filho sofreu diante da Cruz.” 
Foto: Kina Barbosa, 2020
O interior, espaço amplo, encontra-se despojado da maioria dos seus elementos elementos artísticos e religiosos, incluindo o retábulo-mor. Podem ainda ser observados alguns vestígios de pinturas morais. No topo da abobada assenta um lanternim octogonal, alto e esguio, coroado no exterior por um coruchéu, destinado a proporcionar mais iluminação ao interior.
Foto: Kina Barbosa, 2020
A ermida encontra-se muito degradada, com a entrada entaipada, e cercada por ruínas de construções anexas. 
Pelo interesse arquitectónico que possui por si só, pela importância do complexo histórico e patrimonial que integra, classificado como Monumento Nacional em conjunta com o Santuário de Nossa Senhora d'Aires, por Decreto n.º 31-J/2012, DR, 1.ª série, n.º 252 de 31 dezembro 2012.   É imperativo o seu restauro respeitando a sua traça primitiva, repondo o cruzeiro deslocado para as mediações do Castelo.

Fontes:
patrimoniocultural.gov.pt
monumentos.gov.pt
conhecerahistoria.pt

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Edifício das Quatro Estações, Aveiro




Em Portugal, o Azulejo é um símbolo da arte popular que espelha a história e a cultura de um povo e a identidade de uma região. Uma das cidades portuguesas onde esta arte se encontra muito bem representada é na"Veneza Portuguesa", Aveiro, que para alem dos seus famosos canais fluviais, possui também um rico património azulejar. 
São variadíssimas as ruas  onde as fachadas dos edifícios ostentam inúmeros exemplares desta arte, todavia existe uma razão que explica esta forte presença de cerâmica na cidade, com efeito, toda a região possui um solo rico em argila,  os oleiros da região desempenharam um papel importante no desenvolvimento da arte local, valorizando a abundante matéria-prima.
A indústria da olaria começou a desenvolver-se em Aveiro por volta do século XVI,  a actividade foi-se desenvolvendo próximo da actual Sé, num local que ficou conhecido como o “Bairro dos Oleiros” que se foi expandindo até a "Travessa da Olaria", actual Avenida 25 de Abril.
O município de Aveiro foi um dos cofundadores da  Associação Portuguesa das Cidades e Vilas Cerâmicas(AptCC) e a conceituada Universidade de Aveiro, reconhecendo a importância da industria na região, em meados dos anos 70, promove a formação superior na área ao criar a licenciatura em Engenharia Cerâmica e do Vidro. 


A cerâmica rapidamente assumiu um preponderante papel na arquitectura ao ser utilizada como revestimento de edifícios, esta tendência de utilizar azulejos no exterior, apresentando motivos florais e cores muito vivas, foi importada do Brasil, sobretudo pelos emigrantes que regressavam ao país natal e que utilizavam os painéis de azulejos como símbolo de estatuto, poder e ostentação de riqueza. Até então, em Portugal, os azulejos eram usados sobretudo no revestimento de paredes interiores dos edifícios.

No inicio do século XX, a corrente artística denominada "Arte Nova", promove o revivalismo do azulejo como elemento decorativo na arquitectura. Entre muitos outros edifícios, é exemplo desse movimento um edifício de arquitectura civil localizado no centro da cidade, nos números 47 e 49 da Rua Manuel Firmino e conhecido como "Edifício das Quatro Estações" por representar na sua fachada quatro painéis representativos das quatro estações do ano. 


O edifício terá sido construindo por volta de 1922, ano a que reportam os azulejos da sua fachada que estão datados e cuja pintura das composições é atribuída a Francisco Pereira e Licínio Pereira, executados na Fábrica Fonte Nova em Aveiro, uma das mais importantes industrias cerâmicas da região.

Construído para casa de habitação, o edifício ao gosto "Arte Nova" do qual se destaca o referido conjunto de azulejos de qualidade  estilística e cromática que revestem a fachada principal, é composto por dois pisos, a fachada principal apresenta-se integralmente revestida com os painéis, no piso térreo, o "Inverno", no lado direito, e o "Outono", à esquerda. No 2º piso, à direita o "Verão" e à esquerda a "Primavera", o restante é preenchido a azulejos com motivos florais e cores tropicais.

Durante o século XX a casa ficou desabitado e foi-se degradando gradualmente e no inicio do século XXI estava em avançado estado de ruína, subsistindo apenas a fachada, que então exibia portas e janelas de madeira com guardas de ferro. 

Em 1999 o edifício foi homologado como IM - Interesse Municipal, por despacho de 25 abril, foi reconhecida a importância artística e arquitectónica que o mesmo representa para a cidade e em 2004, a fachada do edifício, parte principal do que restou da estrutura original, foi integrado num moderno complexo de habitações e escritórios, e os azulejos que o ornamentam foram restaurados.
A Fábrica Fonte Nova foi fundada em 1882 por três irmãos da família Melo Guimarães cuja instalações se situavam a sul da desaparecida fábrica do Côjo e produzia diferentes géneros de louça, em faiança grosseira ou faiança fina, em pó de pedra ou noutras variantes, e ainda deslumbrantes painéis de azulejo que podem ser apreciados ainda hoje um pouco por todo o país, exibidos nas fachadas de edifícios, como habitações, estações de Caminho de Ferro, com relevo para a velha estação de Aveiro com mais de 50 painéis ilustrativos da região, infelizmente um violento incendeio devastou a fábrica no ano de 1937.

Fontes:
SIPA;
DGPC;