sexta-feira, 5 de julho de 2019

Aldeia Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Fernando Santos (Chana).

Alpiarça é uma vila portuguesa no Ribatejo, pertencente ao Distrito de Santarém, região do Alentejo e sub-região da Lezíria do Tejo. Pertencia ainda à antiga província do Ribatejo, hoje porém sem qualquer significado político-administrativo. Em 17 de Fevereiro de 1906, foi elevada à condição de vila, tendo-se tornado sede de concelho autónoma, é um dos seis municípios de Portugal que possuem apenas uma freguesia, correspondente à totalidade do território do concelho. O município é limitado a nordeste e leste pelo município da Chamusca, a sueste e sudoeste por Almeirim e a noroeste por Santarém.


Por esta vila, assim copo por Almeirim, passava uma via romana que ligava Lisboa a Mérida, encontra-se na margem esquerda do Rio Tejo, a sua povoação era já povoada no período Neolítico   de acordo com as estações arqueológicas de Castelo de Alpiarça e do Cabeço da Bruxa na Quinta da Goucha. 
O concelho de Alpiarça possui ainda uma forte actividade agrícola,  que passa pelas culturas da vinha, do milho, do tomate e uma vasta variedade de produtos hortícolas, proporcionadas pelas boas características do solo. Na sequência desta produção  estabeleceram-se na região várias industrias alimentares aproveitando a proximidade com a matérias primas. De acordo com as armas apresentadas no brasão da vila, o Rio Tejo teve também uma grande importância  no desenvolvimento da actividade piscatória.
Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Paulo Oliveira.

A partir do segunda quartel do século XIX, mais precisamente desde 1833, inúmeras famílias oriundas de Vieira de Leiria viram-se obrigadas a deslocarem-se para as margens do Rio Tejo em busca de um sustento à Borda d´água. Estes vagas de migração ocorreram com maior intensidade entre as décadas de 1860 e 1950, praticamente um século.


Avieiros a coser as redes para a pesca, Caneiras, Santarém.
Fotografia reproduzida e editada do Facebook Avieiros do Tejo

Estes pescadores ficariam conhecidos como "Avieiros", o nome esta ligado ao local de proveniência,  "Vieira de Leiria", desempenhavam a actividade piscatória de forma sazonal (os pescador da zona de Vieira de Leiria, no Inverno, deslocavam-se para as margens do rio Tejo), na época baixa eram na sua maioria lenhadores e agricultores. 

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.

Vivendo entre o barco e a barraca de caniços erguida nas margens do Tejo, os Avieiros trouxeram consigo conhecimentos e técnicas de construção de casas e barcos que possibilitaram a sua adaptação a um meio ambiente de instabilidade. Os aglomerados habitacionais foram-se desenvolvendo sobretudo ao longo do século XX, permitindo a fixação das famílias, surgindo assim as primeiras aldeias Avieiras do Tejo. Algumas das povoações já não mantêm os traços originais e outras estão já desabitadas.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.

A primeira casas da Aldeia do Patacão terá sido construída por volta de 1963, data a partir da qual se terá desenvolvido a aldeia e fixado a população.  As pequenas casas de madeira, conhecidas como "casas palafíticas", foram construídas do mesmo modo como já o tinham feito na praia de Vieira de Leiria, pensadas de forma a resistirem às cheias do Inverno. As casas foram construirias na linha limite da praia, com as "costas" voltadas ao rio e as frentes orientadas para um caminho comum com ligação aos acessos principais.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Pedro Botas.

As "casas palafíticas", como são conhecidas ainda hoje, tiveram a sua origem em construções primitivas à base de canas, antes delas serem construídas, os pescadores chegaram a morar nas embarcações. Depois de alguma estabilidade financeira, adquiriam tábuas para construírem habitações mais estáveis, hoje, já um pouco descaracterizadas, algumas apresenta telhas, chapas metálicas e paredes de tijolo e cimento.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.


O Rio Tejo era uma forte alternativa de subsistência ao mar da Praia de Vieira de Leiria  que negava o sustento aos pescadores durante os meses de Inverno, e por isso era conhecido como "o jardim de peixe". Nele se pescava principalmente o sável que durante o inverno vinha desovar no Tejo. Inicialmente trabalhavam em companhias que contavam com a cooperação de vários pescadores, utilizando os mesmos métodos de pesca que utilizavam no mar, nomeadamente rede varina. O  pescado era enviado para Lisboa e vendido no mercado.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.

Nos anos 70 do século XX, o peixe começou a escassear, a faina deixou de garantir o sustento e os habitantes procuraram outras paragens e dedicaram-se a outras actividades, de entre as quais a agricultura. Uma das principais causas apontadas para a escassez do pescado foi a gradual poluição do rio e contaminação das águas, existem testemunhos da presença de golfinhos nos tempos áureos do rio. 

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Paulo Oliveira.

A falta de oportunidades era uma realidade e os pescadores viram-se obrigados a voltar para o litoral onde o turismo constituía já um forte factor de empregabilidade. Gradualmente a Aldeia do Patacão foi-se despovoando e no final do século XX encontrava-se já completamente abandonada. Durante alguns anos as casas foram alugadas para turismo de habitação, a zona possui uma área extensa de praia fluvial, natureza, calmaria, silêncio e ar puro, características pouco abundantes nas praias do litoral. 

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.


Ao longo de várias décadas de abandono  as casas caíram em degradação e no final da primeira década de 2010, quando se assinalavam os 50 anos da construção das primeiras casas do Patacão, nasce um súbito interesse em recuperar as habitações. É elaborado um conjunto de medidas com vista à preservação, manutenção e reabilitação deste património arquitectónico que é parte integrante da Cultura Avieira. A Casa tal como o barco são as expressões materiais por excelência da Cultura Avieira.  

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.

Desde 2013 que o poder autárquico estuda  a recuperação da Aldeia palafítica do Patacão, enquanto isso, voluntários que em tempos idos ali viveram e organizaram as suas vidas, até à cerca de 30 anos, limpam os terrenos da muita vegetação que cresce livre em redor das casas, evitando a propagação de incêndios. Actualmente, vários ex-residentes e descendentes da comunidade avieira que viveu no Patacão, estão a colaborar activamente na recuperação da aldeia, num entanto a ajuda da Câmara de Alpiarça poderá fazer toda a diferença para a conclusão e sucesso do projecto.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Jorge Viegas.

Desde 2016 que se discutia também a candidatura da Cultura Avieira a Património Imaterial Nacional e da UNESCO, depois de reunidas todas as condições, a candidatura foi efectuada este ano, em junho de 2019, a persistência deste projecto deve-se em grande parte ao município do Cartaxo, que por convicção , nunca desistiu dele.

Ruína de uma Casa Palafítica Avieira do Patacão, Alpiarça, 2014
Fotografia reproduzida e editada de Paulo Oliveira.
Fontes:
"A Casa dos Avieiros", Artigo da página Cultura Avieira;
"Entre os pescadores que chamavam "mar" ao Tejo", Artigo do Público, texto de Lucinda Canelas, 2012;
"Factores identitários da cultura Avieira", Gabinete de Coordenação do projecto da cultura Avieira, IPS, João Monteiro Serrano;

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